
No finalzinho da tarde de sexta-feira, 10, um fato insólito me aconteceu. Com uma pitada de ironia que explico mais adiante.
Era o final de mais uma semana de trabalho, que na agência de propaganda ANC foi toda voltada ao fechamento do informativo especial da Associação Setelagoana de Engenheiros (ASE), que completou 31 anos no dia 11 de dezembro. A proposta da edição comemorativa é a de trazer aos setelagoanos o debate de questões importantes para o desenvolvimento da cidade.
Nas páginas 4 e 5 do InformASE especial, com a colaboração da diretoria da ASE, eu e o publicitário Bruno Santos diagramamos uma matéria tão importante quanto linda. O texto traz a denúncia de que a Lei da Acessibilidade praticamente inexiste em Sete Lagoas. Você pode ler a matéria no link: http://twitpic.com/3fahxq
O informativo foi publicado na festa de aniversário da ASE e, durante a semana, será distribuído aos associados e 500 leitores do jornal Sete Dias.
Agora, a parte irônica. Terminadas a diagramação e a revisão do jornal, restava-me o descanso de final de semana. Porém, a poucos metros de minha casa, escuto um chamado: "ô, jovem!". "Procuro" a voz com o olhar e avisto um cadeirante. Chego próximo ao homem de cabelos grisalhos e aparência de seus 40 e poucos anos. "Amigo, sou cobrador e preciso ir até ali perto dos Correios. Você pode me dar essa ajuda?".
Minha primeira reação foi calcular mentalmente a distância. Do local da abordagem até a rua dos Correios seriam aproximadamente 5 quarteirões. "Ok, faço mais do que esse trajeto todos os dias", pensei.
Instintivamente, somei a caminhada ao fato de que eu teria que fazer uma força até então desconhecida para empurrar um cadeirante debaixo do sol. "Bom, vamos lá", foi o meu raciocínio, tentando expulsar qualquer preconceito ou má-vontade.
Na seqüência de pensamentos, percebi que estava prestes a comprovar "in loco" o que tinha acabado de escrever para o InformASE: as dificuldades que os deficientes físicos têm para transitar por Sete Lagoas. Tal qual Jim Carrey para Morgan Freeman no filme O TODO PODEROSO, respondi mentalmente: "Ok, Senhor, entendi a mensagem".
O cadeirante, que se apresentou apenas como cobrador, não se identificou. Eu também não disse meu nome, mas comecei a contar-lhe que, coincidentemente, tinha terminado de escrever sobre as dificuldades enfrentadas por um cadeirante.
No início, o cobrador não pareceu muito interessado na minha conversa. Sua única preocupação era com os carros. Se eu dizia "podemos ir; o sinal está fechado", ele retrucava: "não, calma aí; espera o policial (militar) olhar pra cá e parar o trânsito". Eu, mudo, entendia e esperava.
Também taciturno, eu tentava entender porque o cadeirante preferia um caminho diferente do que eu tracei mentalmente, logo após o pedido feito lá perto de minha casa. Era óbvio que o trajeto feito pelo cobrador misterioso tinha muito mais de experiência do que minha vivência zero com a realidade de um deficiente físico.
E lá fomos nós. Eu achando o cadeirante leve (num pensamento puramente egoísta) e o cobrador respondendo o condutor tagarela com monossílabos. Contornamos a rotatória do início da rua Santana, passamos ao lado do Museu do Ferroviário e dobramos à esquerda da avenida Antônio Olinto, indo no sentido do fluxo de carros. Ou seja, eu e o cadeirante estávamos de costas para os carros. Ao mesmo tempo que eu me sentia invisível para os carros, eu pensava que também poderia ser uma caçamba no meio do caminho prestes a receber o impacto de algum motorista metido a piloto de Fórmula 1.
Percorremos a avenida Antônio Olinto até a rua Souza Viana, uma subida, que só me fez pensar ainda mais no esforço diário do meu "passageiro". No alto da subida e da minha ingenuidade, fiz a pergunta: "você faz cobranças todos os dias?". O cobrador entendeu meu espanto misturado com compaixão e respondeu secamente: "todos os dias nessa labuta". Entendi.
Ao final do trajeto, na porta dos Correios, o cobrador agradeceu de forma mais carismática. E nossa conversa foi interrompida de forma objetiva, sem muita intimidade. Ele era um cadeirante à procura de ajuda e eu a pessoa certa na hora certa.
Fui acometido de um sentimento de culpa, provavelmente resquício da educação católica dos tempos de catecismo e leituras da Bíblia. Mas, retirando todo o desconhecimento que temos da pós-morte (seremos julgados por nossas ações aqui na Terra?), o que de fato aconteceu foi a constatação real do que eu havia transcrito para o InformASE.
A Lei de Acessibilidade é praticamente inexistente em Sete Lagoas. Quem sofre são os cadeirantes e deficientes visuais (sem falar nos obesos, gestantes e idosos), com calçadas esburacadas, sem rampas ou sinalizações. Com um transporte coletivo que mais desrespeita a inteligência e a dignidade do usuário do que realmente transporta com segurança. Sem contar com a omissão do poder público, que faz cara de paisagem.