domingo, 10 de julho de 2011

Bola murcha


UGO GIORGETTI

Bons companheiros

Esta semana uma matéria da revista Piauí sobre Ricardo Teixeira sacudiu a comunidade futebolística. Partes importantes da matéria foram reproduzidas por vários jornais, inclusive no Estado. Esses resumos traziam as frases e declarações mais bombásticas ou mais exemplares de seu modo de pensar.

Fui ler a reportagem completa da revista Piauí, talvez levado pelo meu instinto de ficcionista, sempre à procura de algum personagem, e, confesso, não me decepcionei. A matéria é exemplar, muito bem escrita, com um agudo senso de observação direcionado aos detalhes e às aparentes insignificâncias. Não vou falar das acusações que pesam sobre Ricardo Teixeira.

Não sou jornalista investigativo e não vou falar sobre o que não sei, embora respeite e goste muito de alguns jornalistas que ele especialmente deprecia em suas declarações. Vou falar do que os detalhes da matéria me revelaram.

Ao contrário do que se poderia pensar, o mundo em que se move o Sr. Ricardo Teixeira é tudo menos glamouroso, aventuresco, imprevisível e charmoso.

O que aparece é um homem absolutamente comum, banal, quase triste, que se movimenta num meio composto de velhos cansados, cinzentos, opacos, que só se manifestam por meio de lugares comuns dos mais vulgares, empregando um linguajar de uma pobreza extrema, só igualado pela indigência de seus raciocínios.

Ricardo Teixeira, o poderoso comandante da CBF, vai a Zurique há mais de trinta anos, mas “seus trajetos são inalteráveis: hotel, Fifa, os mesmos restaurantes, onde é atendido pelos mesmos garçons, a quem pede os mesmos pratos”. Garçons que falam português, e o chamam pelo nome. Tudo o que não for negócios da CBF parece passar a léguas de seu interesse.

Sua quase indiferença a tudo atinge, até os lugares em que está, por mais belos que possam ser. Logo no início da matéria há um parágrafo que equivale a uma descrição quase completa do personagem. Ele está num terraço de hotel que dá para “jardins aparados com esmero em primeiro plano, depois um lago sereno e ao fundo os Alpes soberbos”. Só que Ricardo Teixeira “tomava champanhe sentado de costas para o jardim”.

Em outro momento Teixeira se mostra surpreso ao saber que um dos principais pontos turísticos de Zurique, os vitrais de Marc Chagall, ficam a menos de quatrocentos metros do hotel que frequenta há trinta anos.

Toda essa falta de interesse pode passar apenas por modéstia e concentração em seu próprio trabalho. Não parece ser isso. Parece mais falta completa de imaginação e necessidade de outros alimentos que não estejam conectados com o mero exercício do poder.

Não consegui ver na matéria um único rasgo de grandeza, uma única frase memorável. E todos conhecemos grandes personagens, mesmo quando suas ações são as mais discutíveis, para não dizer desprezíveis.

A literatura e o cinema estão cheios de vilões fascinantes. A mim me pareceu que a Ricardo Teixeira e seus amigos não se aplica a expressão vilões. São muito menos do que isso. Parecem pequenos homens de negócio, de vidas enfadonhas, fechados num estreito círculo igualmente pobre mentalmente, desconfiando uns dos outros, gastando todos seus momentos de vida defendendo-se de acusações reais ou imaginárias. O dinheiro não lhes serve para nada. Não sabem sequer como gastá-lo e mesmo tendo tudo à disposição fazem tudo errado.

O que essa gente tem a ver com a epopeia do futebol? O que tem a ver com vidas como as de Sócrates, Romário, do próprio Ronaldo Fenômeno, esses sim personagens. Esses sim fascinantes, independente do mérito de suas ações. O que esses toscos velhotes de Zurique tem a ver com a elegância de um Falcão ou de um Ricardo Gomes?

O que a paixão de multidões ensandecidas nos estádios de futebol, tem a ver com um personagem que, assistindo Manchester United x Barcelona, no habitual hotel de luxo, enquanto os outros “xingavam, gritavam, comentavam e vibravam, Teixeira parecia ver um filme repetido da sessão da tarde …

No meio do jogo pegou seu iPad. Quando Messi marcou um gol, mal levantou os olhos por cima dos óculos para conferir o tira teima.”

(Artigo publicado no Estado de São Paulo de 10/07/2011)

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