domingo, 7 de agosto de 2011

O homem que sequestrou o mundo

Quase um ano depois de ter se tornado uma das atrações mais comentadas da Mostra Internacional de São Paulo - onde ganhou o prêmio especial da crítica - e do Festival do Rio, estreia na TV a cabo na América Latina, no canal HBO, a minissérie “Carlos”, do cineasta francês Olivier Assayas. A série venceu também o Globo de Ouro de sua categoria.

Diretor de dramas intimistas como “Clean” (2004) e “Horas de Verão” (2008), Assayas, a bem da verdade, foi uma escolha surpreendente para comandar a vibrante telebiografia do famoso terrorista internacional Ilitch Ramírez Sánchez, que passou à história como Carlos, o Chacal.

Inicialmente, o projeto foi oferecido a diretores diferentes - como o russo Pavel Lungin, o israelense Amos Kollek e o egípcio Gabriel Aghion - e começou a ser tocado pelo romeno Radu Mihaileanu (“O Concerto”). Quando ele saiu fora, Assayas recebeu e aceitou o convite, que terminou guindando-o a um novo patamar profissional, pelo ótimo resultado obtido.

Produzida em três capítulos - num total de 5h33 - pela emissora francesa Canal +, à qual somou-se a norte-americana Sundance Channel, “Carlos” teve seu roteiro desenvolvido a partir de uma pesquisa do jornalista Stephen Smith, ao longo de dois anos. A versão final do roteiro foi escrita pelo próprio Assayas, ao lado de Dan Franck e do produtor Daniel Leconte.

O resultado dessa soma de forças foi uma superprodução, com orçamento estimado em torno de 14 milhões de euros, extremamente bem-cuidada, inclusive no respeito às línguas faladas pelos personagens - que incluem espanhol, francês, inglês, alemão e árabe -, além das paisagens (houve filmagens em oito locações, em três continentes).

Venezuelano como o terrorista - que está hoje na prisão na França, cumprindo pena de prisão perpétua -, o ator Edgar Ramírez (visto em filmes como “O Ultimato Bourne”) também conquistou território novo em sua carreira ao encarnar com notável naturalidade o papel desse homem, que se tornou uma das mais conhecidas celebridades do mal a partir dos anos 70, por trás de inúmeros atentados e assassinatos pelo mundo.

Ramírez não só se transforma fisicamente ao longo do filme, engordando e envelhecendo, como consegue transmitir fielmente a ambiguidade de sua personalidade e a mudança de enfoque de sua luta - que, cada vez mais, se afasta de uma alegada “defesa dos povos oprimidos”, aproximando-se de um mercenarismo a serviço de sucessivos grupos, palestinos, japoneses, alemães, sírios, líbios e iraquianos.

Se “Carlos”, a série, não guarda tantas semelhanças com “Che”, o duo de filmes assinados por Steven Soderbergh, particularmente devido à eficiência dramática da primeira e à frieza do segundo, o mesmo não se diga dos dois personagens, duas das figuras mais emblemáticas da política de décadas atrás.

Internacionalistas os dois, a princípio, distanciam-se na medida em que, ao contrário de Che Guevara, Carlos deixou de lado qualquer idealismo. Como definiu o diretor Assayas, na coletiva de imprensa do Festival de Cannes 2010, onde a série teve sua première mundial: “Carlos passou de militante a mercenário cínico”.

Com rigorosa reconstituição de época, não só em termos de cenários e figurinos, como dos detalhes de episódios marcantes na trajetória do terrorista - como a invasão de uma reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em Viena, em 1975, e o resgate dos reféns por ele mantidos num avião pelo serviço secreto israelense em, Entebbe, Uganda, em 1976 - “Carlos” supera com folga as habituais limitações da estética televisiva, mergulhando fundo no contexto histórico, ao mesmo tempo que aprofunda seus personagens e radiografa uma época e suas paixões.

(texto do site UOL Entretenimento)

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