domingo, 6 de novembro de 2011

Dá nada não, fih!

Libera geral, libera geral, então libera! (foto de Helvio Romero/AE)

Em maio deste ano, o estudante Felipe Ramos de Paiva foi assassinado num dos estacionamentos da Cidade Universitária da USP, na capital paulistana. O crime, latrocínio, ocorreu após uma tentativa de assalto. A Reitoria da USP, para tentar evitar ocorrências parecidas, firmou convênio com a PM paulista, que desde o primeiro semestre atua no campus da universidade.

Há mais de uma semana, três estudantes de Geografia da USP foram detidos pela mesma PM enquanto fumavam maconha no mesmo campus. Outro crime. Uma parcela dos universitários não gostaram da ação policial e resolveram protestar e ocupar prédios da USP, pedindo o fim dos processos criminais e administrativos contra estudantes e trabalhadores.

O jornalista Ricardo Kotscho faz uma interessante avaliação sobre o movimento estudantil que sofre de transtorno bipolar: devemos nos indignar contra os assassinatos cometidos pelos criminosos, mas não podemos colocar a polícia para reprimí-los, pois são eles que fornecem a maconha da galera.


TEXTO PUBLICADO NO BALAIO DO KOSTCHO:

As cenas de vandalismo, ocupação de prédios públicos, enfrentamentos com a polícia e o desrespeito à Justiça repetem-se todos os anos, tão previsíveis como o Natal e o Carnaval.

Os motivos podem variar de um ano para outro, mas os personagens desta zorra total são sempre os mesmos: parcelas minoritárias de estudantes, funcionários e professores, que transformaram o campus da Universidade de São Paulo numa terra de ninguém.

Estamos falando de uma comunidade de 200 mil pessoas: 5,5 mil docentes, 15,5 mil funcionários e 80 mil estudantes, além de 100 mil pessoas de fora que frequentam diariamente a Cidade Universitária em busca de suas atividades de lazer, educativas e culturais.

Desta vez, os revoltosos em busca de uma causa protestam, desde o dia 27 de outubro, contra a prisão de três estudantes de Geografia que a Polícia Militar pegou em flagrante fumando maconha.

Como acham que a Cidade Universitária é um território livre, sem lei e sem ter que dar satisfações a ninguém, as hordas radicalizadas ocuparam primeiro o prédio da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a popular FFLCH, onde estudei na década de 70, quando os estudantes lutavam contra a ditadura militar e enfrentavam a polícia sem capuzes em defesa da democracia.

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Em assembleia geral na última terça-feira (1º), por 559 votos a 458, a maioria dos estudantes reunidos em assembleia decidiu desocupar o prédio.

Mas a minoria derrotada não se conformou e resolveu invadir o prédio da reitoria, onde cerca de 150 estudantes continuam acampados infernizando a vida de mais de mil funcionários que não podem trabalhar. João Grandino Rodas, o valente reitor da USP, que desapareceu no meio da confusão, despacha agora em local ignorado.

No final da tarde de quinta-feira (3), a juíza Simone Rodrigues Casoretti, da 9ª Vara da Fazenda Pública, deu 24 horas de prazo para que os invasores deixem a reitoria, a partir do momento em que receberem a notificação, o que não tinha acontecido até as 8 h da manhã desta sexta-feira (4).

A liminar da juíza autorizou o uso de força policial para cumprir a reintegração de posse, mas isto não abalou as lideranças encapuzadas: em nova assembleia, na mesma noite, os estudantes decidiram continuar acampados no prédio da Reitoria.

Abrigados em grupos autodenominados Movimento Negação da Negação, Liga Estratégia Revolucionária e Partido da Causa Operária, estes seguidores de Bin Laden infernizam a vida não só de quem trabalha e estuda na USP, mas das cerca de 100 mil pessoas que circulam diariamente pela Cidade Universitária.

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Morei ao lado da USP por mais de 30 anos e acompanhei a progressiva degradação do campus, que registra um número cada vez maior de assassinatos, roubos e estupros, com a livre circulação de traficantes e o consumo de drogas a céu aberto, uma verdadeira "cracolândia" acadêmica.

O professor Grandino Rodas passa a maior parte do tempo brigando com a direção da Faculdade de Direito, que ocupou antes de ser nomeado reitor no governo de José Serra, e perdeu completamente o controle da situação.

Agora, os estudantes amotinados querem simplesmente a retirada da PM do campus da USP, como se fossem os donos do lugar, que é um patrimônio público custeado com os impostos pagos por todos nós.

Assim como acontece com os crimes de trânsito, o que fortalece os líderes da baderna é o sentimento de impunidade, já que não se tem notícia de qualquer punição após a repetição das cenas de violência que já fazem parte da paisagem da USP, a maior universidade da América Latina.

Nas três ou quatro palestras que fiz este ano na Cidade Universitária, a convite de professores e alunos, chamou-me a atenção o grau de desinformação e de desinteresse da grande maioria deles, mais preocupados com a falta de vagas nos estacionamentos sempre superlotados.

Até quando estas cenas de velho oeste se repetirão diante da omissão do poder público?

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